Remédios GLP-1 sob escrutínio por risco de pancreatite e uso no esporte

Reino Unido e Brasil emitiram alertas sobre uma possível associação entre medicamentos GLP-1 para perda de peso e pancreatite, embora a relação causal permaneça incerta. Ao mesmo tempo, a WADA incluiu agonistas do receptor de GLP-1 na lista de monitoramento de 2026, diante de preocupações com perda de massa magra e possíveis impactos no desempenho de atletas.

O Reino Unido e o Brasil emitiram alertas sobre uma possível ligação entre medicamentos GLP-1 para perda de peso e inflamação do pâncreas, embora a conexão permaneça incerta. O risco de pancreatite já consta nas bulas fornecidas às pessoas que usam esses fármacos, mas um grande aumento no número de notificações de pancreatite nos últimos anos — incluindo casos graves e mortes — levou a UK Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA) a reforçar seu aviso.

As 19 mortes registradas no Reino Unido foram relatadas entre 2007 e outubro de 2025. No mesmo período, quase 1.300 notificações de pancreatite associada a medicamentos GLP-1 foram comunicadas às autoridades de saúde. As seis mortes no Brasil foram relatadas de 2020 a dezembro de 2025, assim como 145 casos de pancreatite em pessoas que tomavam medicamentos GLP-1. O uso disseminado desses fármacos para tratar obesidade começou em 2021.

Considerando o número de pessoas que utilizam esses medicamentos — somente na Grã-Bretanha, estima-se que 1,6 milhão de adultos tenham usado medicamentos GLP-1 entre o início de 2024 e o início de 2025 —, o risco de desenvolver esses efeitos adversos é muito pequeno. Em comparação, milhares de pessoas são hospitalizadas com pancreatite na Grã-Bretanha todos os anos.

É muito desafiador determinar se os casos de pancreatite foram causados diretamente pelos medicamentos, porque muitas pessoas que usam essas terapias já apresentam, de início, risco aumentado de pancreatite. Além disso, qualquer pessoa pode notificar efeitos colaterais de medicamentos aos bancos de dados do Reino Unido e do Brasil, que foram a fonte dos números de casos.

Os dados sobre o risco de pancreatite com o uso de GLP-1 têm sido muito heterogêneos. Uma meta-análise de 2025 de 62 ensaios clínicos randomizados e controlados de diversos medicamentos GLP-1 constatou que as pessoas em uso desses fármacos tinham um risco ligeiramente maior de pancreatite em comparação com aquelas em uso de placebo. Mas outras análises não encontraram essa associação.

Em um esforço para fornecer uma resposta a pacientes que hesitavam em usar os medicamentos por conta de possíveis efeitos adversos, pesquisadores compararam o risco de pancreatite entre dois grupos, cada um composto por quase 82.000 pessoas com diabetes tipo 2. Os grupos tinham fatores de risco semelhantes para pancreatite, mas as pessoas de um grupo tomavam medicamentos GLP-1 e as do outro grupo não. Os pesquisadores não encontraram diferença nas taxas de pancreatite entre os dois.

Agonistas do receptor de GLP-1 — vendidos sob nomes de marca como Ozempic e Mounjaro — foram inicialmente desenvolvidos para tratar diabetes. Agora, cientistas estão explorando os benefícios do uso desses medicamentos para uma série de outras doenças crônicas — muitas com poucas opções terapêuticas —, como insuficiência cardíaca, doença hepática crônica, apneia obstrutiva do sono e até transtornos por uso de substâncias.

Em vez de abordar biomarcadores ligados a determinados desfechos de doenças, esses fármacos influenciam o processo metabólico cardiorrenal central. Essa abordagem abrangente tornou os medicamentos GLP-1 a escolha mais eficaz e bem tolerada para a maioria dos pacientes em tratamento de diabetes e obesidade.

Em um estudo recente, pesquisadores observaram que GLP-1s foram altamente eficazes para pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, condição em que o músculo do coração fica tão rígido que o ventrículo comporta menos sangue do que o habitual; os GLP-1s mostraram uma redução de 40% no risco relativo em comparação com um medicamento mais antigo para diabetes.

Verificou-se que os medicamentos GLP-1 reduzem o risco de eventos cardiovasculares adversos maiores, como morte cardiovascular, infarto do miocárdio não fatal e AVC não fatal. E isso tem sido demonstrado repetidamente com diferentes GLP-1s dentro da classe.

A World Anti-Doping Agency (WADA) incluiu os ARs de GLP-1 em sua lista de monitoramento de 2026. Isso não significa que atletas estejam proibidos de usar esses medicamentos, mas sim que a WADA caminha para monitorar padrões de uso que sugiram uso indevido ou consequências não intencionais sobre o desempenho. Para que um fármaco ou método seja incluído na lista de proibidos, ele deve atender a pelo menos 2 dos seguintes 3 critérios: melhora de desempenho, risco à saúde do atleta ou violação do “espírito do esporte”.

Os ARs de GLP-1 estimulam a saciedade e reduzem a ingestão energética por vias neuroendócrinas que inibem o apetite e retardam o esvaziamento gástrico. Embora essas propriedades sejam benéficas no tratamento do diabetes e da obesidade, elas também influenciam a ingestão nutricional e energética em atletas, cuja taxa metabólica é excepcionalmente alta. Entre as preocupações mais importantes está a perda não intencional de massa magra. Dados de estudos de exercício e esportes mostraram que os ARs de GLP-1 reduzem o peso corporal total e, simultaneamente, diminuem a massa magra, que inclui tecido muscular esquelético essencial para potência, resistência e recuperação.

Médicos com expertise em medicina esportiva destacaram equívocos frequentes sobre agentes GLP-1 entre atletas. Tomar um GLP-1 “queima gordura, mas também vai queimar músculo”, enfatizando as trocas fisiológicas que podem prejudicar a capacidade atlética. Assim, atletas podem apresentar redução de velocidade, resistência e explosão — determinantes-chave do desempenho máximo. Alguns atletas acreditam erroneamente que os ARs de GLP-1 “podem ajudá-los a aumentar a insulina e, com isso, aumentar a massa muscular”, mas “isso não é verdade de forma alguma”.

Atualmente, não há evidência convincente de um efeito de melhora de desempenho dos ARs de GLP-1 em indivíduos saudáveis, não diabéticos, enquanto efeitos adversos como redução da ingestão energética, alterações nas práticas de abastecimento energético (fueling) e perda de massa magra poderiam potencialmente prejudicar o desempenho.

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References

  1. Are obesity drugs causing a severe complication? What the science says - Nature · www.nature.com
  2. What's next for GLP-1s? - Medical Xpress · medicalxpress.com
  3. What the Growing Use of GLP-1 Medications Could Mean for Athletes at the Olympics · www.pharmacytimes.com