Dois avanços no diabetes: terapia com células-tronco reverte o tipo 2, e metformina é associada à longevidade
Cientistas na China relataram a reversão do diabetes tipo 2 em um paciente após transplante de células de ilhotas pancreáticas produzidas a partir de células-tronco. Em outra análise, o uso de metformina em mulheres com diabetes tipo 2 foi associado a menor mortalidade antes dos 90 anos, mas ambos os achados exigem estudos maiores para confirmação.
Cientistas na China relataram ter revertido o diabetes tipo 2 em um paciente usando terapia com células-tronco, enquanto um estudo separado sugere que a metformina pode estar associada a uma longevidade excepcional em mulheres com a doença. Ambos os avanços representam potenciais mudanças no tratamento do diabetes, embora especialistas peçam cautela até que estudos maiores sejam realizados.
Pesquisadores chineses usaram tecnologia de células-tronco para criar células das ilhotas pancreáticas produtoras de insulina, que então foram transplantadas em um paciente com diabetes tipo 2. O paciente, que antes dependia de insulina, agora estaria sem necessidade de medicamentos após receber as células pancreáticas produzidas em laboratório, projetadas para restaurar a produção natural de insulina. Após o tratamento, o paciente supostamente não precisou mais de injeções de insulina nem de outros medicamentos para diabetes.
O diabetes tipo 2 se desenvolve quando o corpo se torna resistente à insulina e, com o tempo, o pâncreas não consegue produzir insulina suficiente para manter níveis normais de glicose no sangue. Ao restaurar células funcionais produtoras de insulina, a terapia busca corrigir a causa raiz da doença, em vez de apenas controlar os sintomas.
Especialistas médicos enfatizam que este parece ser um sucesso em estágio inicial. Mais pacientes precisam ser estudados. Dados de segurança de longo prazo são essenciais. Não está claro por quanto tempo o efeito se manterá ao longo de anos. Também há preocupações sobre custo, acessibilidade, riscos de rejeição imunológica e se a terapia funcionará em todos os pacientes com diabetes tipo 2.
Médicos dizem que ainda é cedo para chamar isso de “cura”. Na ciência médica, a reversão em um paciente não significa automaticamente cura permanente para todos. Recomenda-se que os pacientes não interrompam sua medicação nem mudem planos de tratamento sem consultar seu médico.
Espera-se que os pesquisadores conduzam estudos mais amplos para avaliar a eficácia em diferentes faixas etárias, a independência de insulina a longo prazo, o risco de complicações e as aprovações regulatórias.
Em uma análise separada de mulheres na pós-menopausa com diabetes tipo 2, investigadores descobriram que aquelas que iniciaram tratamento com metformina tinham maior probabilidade de alcançar “longevidade excepcional”, isto é, viver até pelo menos 90 anos. O estudo comparou a metformina com outra classe de medicamentos para diabetes comumente utilizada, as sulfonilureias.
Os pesquisadores observaram que as mulheres que usaram metformina tiveram uma taxa 30% menor de morte antes dos 90 anos do que aquelas que usaram sulfonilureias. A razão de risco (hazard ratio) foi de 0,70, o que significa que o grupo metformina teve cerca de 30% menor taxa de morte antes dos 90 anos durante o período do estudo.
A equipe utilizou um método chamado “emulação de ensaio-alvo” (target trial emulation), que permite aos cientistas analisar dados existentes como se estivessem conduzindo um ensaio randomizado. Eles se basearam no Women's Health Initiative, um estudo de longa duração dos EUA que recrutou mais de 161.000 mulheres na década de 1990 e acompanha sua saúde há mais de 30 anos. Mais de 42.000 mulheres ainda participam.
A partir desse grande grupo, os pesquisadores selecionaram 438 mulheres na pós-menopausa que desenvolveram diabetes tipo 2 e iniciaram tratamento com metformina isoladamente ou com sulfonilureia. Eles ajustaram cuidadosamente diferenças como idade, condições de saúde e estilo de vida para tornar os dois grupos o mais comparáveis possível.
Os autores alertam: "Como essa comparação não foi feita com placebo em um ensaio clínico randomizado (randomized controlled trial) e dado o desenho observacional com potencial de confundimento residual, não se pode inferir causalidade." Os achados mostram uma associação, não a prova de que a metformina prolonga a vida diretamente. Outros fatores — como diferenças na gravidade da doença ou padrões de prescrição — podem explicar parcialmente os resultados.
Pesquisadores frequentemente discutem a metformina no contexto da gerociência (geroscience), um campo que estuda se direcionar a biologia do envelhecimento poderia atrasar múltiplas doenças ao mesmo tempo. A metformina afeta vários processos ligados ao envelhecimento, incluindo a sinalização da insulina, o estresse celular e danos ao DNA.
Os pesquisadores propõem um novo estudo para o futuro chamado Targeting Aging with Metformin (TAME) trial para testar se a metformina pode atrasar o início de várias condições relacionadas à idade em adultos mais velhos. Mas observam que o ensaio ainda não começou porque ainda não tem financiamento suficiente.
O diabetes tipo 2 afeta centenas de milhões de pessoas em todo o mundo. Ele aumenta o risco de doença cardíaca, AVC, insuficiência renal, dano nervoso e perda de visão. A maioria dos pacientes controla a condição por meio de dieta, exercícios, medicamentos orais ou terapia com insulina. Um tratamento que restaure a produção natural de insulina poderia reduzir drasticamente complicações de longo prazo e custos de saúde.
Até que grandes ensaios clínicos confirmem os achados, o manejo do estilo de vida, os medicamentos e a insulina continuam sendo o padrão de cuidado.