Smartwatches mostram potencial para prever recaídas da depressão, mas têm lacunas no monitoramento da pressão arterial
Pesquisas recentes sugerem que dispositivos vestíveis podem antecipar recaídas de depressão ao analisar ritmos diários e padrões de sono, permitindo monitoramento contínuo entre consultas. Em paralelo, estudos indicam limitações nos alertas de pressão alta do Apple Watch — especialmente em idosos — e mostram que trocar tempo de TV por atividades físicas, sobretudo esportes, pode reduzir o risco de depressão.
Rastreadores vestíveis (wearables) podem detectar sinais sutis de uma recaída da depressão semanas — ou até meses — antes de um episódio de fato, segundo uma nova pesquisa publicada em 11 de fevereiro na JAMA Psychiatry. O estudo acompanhou 93 adultos canadenses por até dois anos, todos com diagnóstico de transtorno depressivo maior e que já haviam se recuperado de um episódio de depressão.
Ao analisar mais de 32.000 dias de dados de dispositivos de nível de pesquisa semelhantes a um Fitbit ou Apple Watch, os cientistas constataram que os ritmos diários de uma pessoa contam uma história. Em particular, pessoas com horários de sono irregulares tiveram quase o dobro do risco de voltar a um episódio depressivo. O sinal mais revelador não foi apenas quanto tempo alguém dormiu, mas o quanto o dia diferia da noite. Quando os dados mostravam menor diferença entre o movimento durante o dia e o repouso à noite, uma recaída frequentemente estava prestes a acontecer.
O transtorno depressivo maior é um desafio recorrente para muitos, com cerca de 60% dos pacientes apresentando recaída em até cinco anos após a recuperação. Aproximadamente 16% dos adultos dos EUA enfrentam a condição em um determinado ano. Tradicionalmente, os médicos têm de esperar que os pacientes relatem sintomas — como humor deprimido ou perda de interesse —, que muitas vezes só aparecem quando a recaída depressiva já está em pleno curso.
Ao coletar dados de forma passiva, wearables de saúde digital permitem monitoramento contínuo entre as consultas médicas. Essa abordagem “sempre ligada” pode revolucionar a forma como a saúde mental é gerenciada, mudando de tratamentos reativos para prevenção proativa. “Imagine um futuro em que um smartwatch possa alertar pessoas com depressão: ‘É muito provável que um novo episódio de depressão venha nas próximas quatro semanas. Que tal procurar seu profissional de saúde?’”, disse um professor de psiquiatria da McMaster University, em Hamilton, Ontário, Canadá.
Uma pesquisa separada sobre fatores de estilo de vida constatou que substituir 60 minutos de TV por algo mais ativo reduziu o risco de depressão em 11% — e em quase 19% em adultos de meia-idade. Pesquisadores holandeses que acompanharam mais de 65.000 adultos por quatro anos observaram que, para realocações de 90 e 120 minutos, essa redução na probabilidade sobe para 25,91%. Os achados foram publicados na revista European Psychiatry.
Embora quase toda alternativa à TV tenha reduzido o risco de depressão, não foi encontrado benefício significativo — além de uma casa mais arrumada — ao trocar 30 minutos de TV por tarefas domésticas. Já passar essa meia hora praticando esportes trouxe um benefício de 18% no geral, e substituir o mesmo tempo por atividade física no trabalho ou na escola reduziu o risco em 10%. Até deslocamento e sono trouxeram ganhos, de 8% e 9%, respectivamente. Em todas as janelas de tempo estudadas, a prática de esportes gerou a maior redução na probabilidade de desenvolver depressão maior.
De forma importante, trocar tempo de TV por atividades mais ativas não trouxe benefício significativo no risco de depressão em adultos jovens. Os pesquisadores suspeitam que isso provavelmente ocorre porque, como grupo, eles tendem a ser mais ativos desde o início. Eles podem já exceder o nível de atividade que oferece proteção contra a depressão. Além disso, simplesmente realocar o tempo de TV para outras atividades não alterou de modo significativo as taxas de depressão em adultos mais velhos. A prática de esportes foi a única alternativa à TV que fez diferença para eles. Substituir 30 minutos de TV por esportes reduziu a probabilidade de depressão de 1,01% para 0,71%. Com 60 minutos, o risco caiu para 0,63% e, com 90 minutos, para 0,56%.
Enquanto isso, pesquisas sobre monitoramento cardiovascular por dispositivos vestíveis revelaram lacunas críticas nos alertas de pressão alta do Apple Watch que podem deixar os usuários com uma falsa sensação de segurança. Há lacunas críticas nos alertas de pressão alta do Apple Watch que podem deixar os usuários com uma falsa sensação de segurança, relataram pesquisadores em 9 de fevereiro no Journal of the American Medical Association. Em essência, a ausência de um alerta deveria ser menos tranquilizadora para idosos do que para pessoas mais jovens.
A U.S. Food and Drug Administration aprovou o recurso de notificação de pressão alta do Apple Watch em setembro. O relógio não usa um manguito tradicional para aferir a pressão arterial; em vez disso, utiliza seus sensores ópticos para acompanhar padrões de fluxo sanguíneo. A Apple afirmou que o relógio não se destina a diagnosticar pressão alta, mas foi projetado para orientar os usuários a procurar um médico quando houver sugestão de pressão alta.
Um estudo de validação conduzido pela Apple constatou que cerca de 59% das pessoas com pressão alta não diagnosticada não receberiam um alerta, enquanto cerca de 8% das pessoas sem pressão alta receberiam um alerta falso. Com mais de 200 milhões de usuários do Apple Watch no mundo, o recurso Hypertension Notification Feature oferece novas oportunidades para identificar adultos com hipertensão não diagnosticada, mas também com potencial de classificação incorreta de hipertensão.
Os resultados mostraram que, entre adultos com menos de 30 anos, receber um alerta do Apple Watch aumenta a probabilidade de eles terem pressão alta de 14% para 47%. Por outro lado, não receber um alerta reduz essa probabilidade para 10%. Para adultos com 60 anos ou mais, um alerta eleva a probabilidade de 45% para 81%, o que faz sentido, já que pessoas de meia-idade e idosos têm maior chance de ter pressão alta. No entanto, não receber um alerta reduz muito pouco suas chances de ter pressão alta, diminuindo de 45% para ainda elevados 34%.
O mesmo vale para adultos negros, que têm maior risco de doença cardíaca. Receber um alerta aumenta a probabilidade de pressão alta de 36% para 75%, mas não receber um alerta reduz a probabilidade apenas para 26%. Em comparação, um alerta entre adultos hispânicos aumenta a probabilidade de 24% para 63%, e a ausência de alerta reduz a probabilidade para 17%.
Esses resultados mostram que smartwatches podem complementar o rastreamento padrão de pressão arterial, mas não devem substituí-lo.