FDA recua e aceita analisar pedido da vacina de gripe de mRNA da Moderna
A FDA aceitou analisar a vacina experimental contra influenza baseada em mRNA da Moderna após reverter uma recusa inicial de protocolo. A agência adotou um caminho regulatório dividido, com aprovação tradicional para 50–64 anos e aprovação acelerada para 65+ com exigência de estudo pós-comercialização, e fixou a data-alvo de 5 de agosto de 2026.
The Food and Drug Administration concordou em analisar a vacina experimental contra influenza baseada em mRNA da Moderna, após reverter uma decisão anterior de recusar o pedido. A agência aceitou uma abordagem regulatória modificada após uma reunião entre a Moderna e o Center for Biologics Evaluation and Research da FDA.
Após o envio da solicitação emendada, a FDA aceitou o pedido de licença de produtos biológicos (biologics license application) para análise e atribuiu uma data-alvo, sob a Prescription Drug User Fee Act, de 5 de agosto de 2026. Dependendo da análise e da aprovação pela FDA, a mRNA-1010 estaria disponível para adultos nos EUA com 50 anos ou mais, incluindo adultos com 65 anos ou mais, para a temporada de gripe de 2026/2027.
Sob a nova abordagem regulatória, a Moderna busca aprovação plena para a vacina em adultos de 50 a 64 anos e aprovação acelerada para pessoas com 65 anos ou mais. Isso significa que, após a aprovação, a Moderna terá de conduzir um estudo adicional pós-comercialização em adultos mais velhos para confirmar seus benefícios.
A reversão ocorreu apenas uma semana após a decisão surpreendente da FDA de não analisar o pedido da vacina experimental contra gripe da empresa. A agência enviou uma carta de recusa de protocolo (refusal-to-file) em 3 de fevereiro, assinada pelo chefe do Center for Biologics Evaluation and Research, chamando o pedido de inadequado para análise. Esse tipo de carta é raro, segundo um estudo de 2021 no JAMA Internal Medicine.
A FDA criticou especificamente a decisão da Moderna de comparar seu produto com uma vacina padrão, aprovada, contra gripe em um ensaio de fase 3, argumentando que isso "não reflete o melhor padrão de cuidado disponível" nos EUA. A agência sinalizou repetidamente que o ensaio clínico da Moderna pode inflar o benefício de sua vacina contra gripe em adultos com 65 anos ou mais — a população com maior risco de ficar gravemente doente por gripe — ao compará-la com uma vacina inferior ao padrão de cuidado.
Segundo o comitê dos Centers for Disease Control and Prevention que define a política de vacinação dos EUA, indivíduos com 65 anos ou mais devem receber uma das três vacinas contra gripe a seguir: Fluzone High-Dose, Flublok ou Fluad. Mas a Moderna comparou sua vacina com uma vacina contra gripe que não está na lista do comitê, a Fluarix. Uma análise mais detalhada do rótulo da Fluarix mostra que sua eficácia cai drasticamente com a idade, para apenas 14% de eficácia entre 50 e 64 anos. O amplo intervalo de confiança desse valor de 14% inclui a possibilidade de que a vacina possa não funcionar em pessoas mais velhas.
A Moderna contestou esse raciocínio, observando que regras e orientações da FDA não exigem que os ensaios usem a vacina mais avançada ou de dose mais alta como comparador em estudos clínicos. A empresa também disse que isso foi inconsistente com a comunicação escrita anterior da FDA sobre o desenho do estudo, ainda antes de ele começar, quando a agência afirmou que o uso da vacina padrão contra gripe seria "aceitável".
Para testar a segurança e a eficácia de sua vacina contra gripe de mRNA, a Moderna conduziu dois ensaios de fase 3. Em um deles, mais de 40.000 participantes receberam a vacina experimental ou uma vacina padrão contra gripe. Outro ensaio comparou a vacina de mRNA com uma vacina padrão e com a vacina de dose alta recomendada para idosos.
A empresa afirmou que teve uma reunião "construtiva" com a FDA e propôs uma abordagem regulatória revisada que aborda as críticas feitas pela agência ao recusar aceitar o pedido na semana passada, adaptando sua nova proposta para uma população mais idosa. O diretor-presidente declarou que, dependendo da aprovação pela FDA, a empresa espera disponibilizar sua vacina contra gripe ainda este ano, para que os idosos dos EUA tenham acesso a uma nova opção para se proteger contra a gripe.
As ações da empresa de biotecnologia subiram mais de 6% na quarta-feira. O valor das ações da Moderna subiu 6%, de US$ 43,93 no fechamento de 17 de fevereiro para US$ 46,70 na abertura de 18 de fevereiro. O valor de mercado da empresa é de US$ 18,16bn.
A Moderna disse que sua nova vacina contra gripe foi liberada para análise na Austrália, no Canadá e na União Europeia.
O uso de mRNA permite um desenvolvimento mais rápido de vacinas. Durante a pandemia de COVID-19, a Moderna usou a tecnologia para desenvolver uma das primeiras vacinas disponíveis nos EUA. Enquanto vacinas tradicionais são baseadas em um vírus enfraquecido, vacinas de mRNA, em vez disso, usam uma molécula chamada RNA mensageiro (messenger RNA) que o corpo reconhece como estranha. Isso induz a produção de anticorpos que permitem ao organismo responder rapidamente se exposto ao próprio vírus.
Atualmente, a forma como as vacinas contra gripe são produzidas envolve observar o que está acontecendo do outro lado do globo e prever qual cepa vai predominar em seis meses. Esse processo leva tempo. A promessa da tecnologia de mRNA é que isso pode ser feito com um prazo de resposta um pouco mais rápido, e seria possível colocar uma vacina no mercado muito mais rapidamente, especialmente em um cenário de pandemia de gripe.
Vacinas contra influenza produzidas via tecnologia de mRNA terão um tempo de produção menor do que vacinas baseadas em ovos, vacinas baseadas em células ou vacinas recombinantes. Essa redução no tempo de produção significa que as vacinas podem ser fabricadas mais perto do início da temporada de gripe, permitindo, assim, uma melhor correspondência com as cepas de influenza circulantes naquela temporada.
O anúncio abre um caminho a seguir para a vacina, o que é fundamental para a vacina combinada experimental contra Covid-gripe da Moderna e para a meta da empresa de empatar (break even) até 2028.