Sobrevivência ao câncer traz foco de longo prazo à saúde do coração
Mais sobreviventes de câncer estão vivendo tempo suficiente para enfrentar efeitos cardiovasculares duradouros do tratamento. Clínicas de cardio-oncologia manejam insuficiência cardíaca, doença valvar e cardiopatias relacionadas à radiação, destacando a necessidade de acompanhamento de longo prazo.
A saúde cardíaca na sobrevivência ao câncer vem ganhando destaque à medida que mais pacientes sobrevivem ao câncer do que nunca, e profissionais de cardio-oncologia passam a manejar um amplo espectro de condições cardíacas relacionadas ao tratamento. Cardiotoxicidade tardia profunda pode ocorrer após esquemas com intenção curativa, particularmente quimioterapia intensiva com antraciclinas, terapia em altas doses com transplante e radioterapia em campo cardíaco, exigindo estratégias de vigilância de longo prazo.
Em 2000, quando tinha 26 anos e estava nos primeiros meses da faculdade de medicina, Dr. Dawn Mussallem desabou a caminho de casa após a aula em choque cardiogênico; seu coração não estava bombeando. Pouco depois, os médicos encontraram uma massa de 16 centímetros em seu tórax, envolvendo o coração, que havia colapsado seu pulmão esquerdo. Ela recebeu diagnóstico de linfoma não Hodgkin difuso de grandes células B em estágio 4 e foi informada de que teria três meses de vida se não iniciasse o tratamento imediatamente.
Seguiu-se um regime intenso de tratamento com cirurgia, quimioterapia e transplante de medula óssea, e depois radioterapia. Ela começou a trabalhar na medicina, deu à luz uma filha e, três semanas depois, passou a apresentar insuficiência cardíaca — condição com a qual viveria pelos 18 anos seguintes, até ser submetida a um transplante cardíaco em 2021.
“Aprendemos da maneira mais difícil que, sim, algumas das quimioterapias que administramos são muito tóxicas para o coração e parte da radioterapia ou da radiação que aplicamos também pode ser, dependendo do posicionamento, potencialmente tóxica para o coração”, diz ela. “Para mulheres jovens com diagnóstico de câncer de mama, nós as colocamos em terapia antiestrogênica. Há discussão de que isso representa risco de efeitos posteriores relacionados a doença cardíaca porque elas estão tendo supressão hormonal.”
A taxa de sobrevida em cinco anos para todos os cânceres combinados está em um recorde histórico de 70%, segundo o relatório anual de estatísticas de 2026 da American Cancer Society citado no artigo. “Estamos agora em uma era diferente. Com tantos sobreviventes de câncer, temos de começar a prestar atenção a outras questões críticas, como a saúde do coração”, afirma Dr. Michelle Bloom.
Bloom diz que profissionais de cardio-oncologia observam um amplo espectro de conexões entre tratamentos oncológicos e saúde cardíaca. Sobreviventes de câncer podem desenvolver insuficiência cardíaca, quando o músculo cardíaco se torna enfraquecido ou rígido. Eles também podem desenvolver doença valvar, na qual as válvulas cardíacas podem se estreitar ou apresentar insuficiência, assim como doença arterial coronariana, especialmente em pacientes que receberam radiação no tórax como parte do tratamento do câncer.
Clínicas de cardio-oncologia manejam fenótipos diversos associados à terapia, incluindo insuficiência cardíaca de início precoce, doença coronariana e valvar associada à radiação e pericardite constritiva, ressaltando a necessidade de cuidado multidisciplinar longitudinal.
Um sobrevivente descreveu outro percurso entre câncer e doença cardíaca. Ele disse que recebeu diagnóstico de câncer de esôfago no outono de 2021, iniciou imediatamente radioterapia e foi submetido a uma esofagectomia depois de ser informado de que tinha de 30% a 50% de chance de sobrevivência. Segundo ele, está livre do câncer até onde se sabe.
Ele também disse que recebeu diagnóstico, aos 57 anos, de ARVC, um defeito ou doença cardíaca genética rara, e que aos 67 anos segue vivo e ativo. Disse que a condição é progressiva, incurável e fatal, e que a medicina moderna pode retardá-la com os medicamentos que usa. Afirmou que, dois meses antes, havia sido informado de que a única solução era um transplante cardíaco e que não tinha interesse nisso.
Os relatos refletem uma questão central no cuidado ao sobrevivente: pessoas que sobreviveram ao câncer podem viver por anos após o tratamento enquanto lidam com efeitos cardiovasculares duradouros e outras complicações de longo prazo.