Terapia gênica para doença falciforme segue inacessível na África apesar de aprovações nos EUA e no Reino Unido
Terapias de edição genética aprovadas para curar a doença falciforme, como Casgevy, custam cerca de US$2,2 milhões e seguem fora do alcance da maioria dos pacientes na África, onde ocorrem aproximadamente 80% dos casos. Enquanto isso, Uganda inicia a triagem neonatal obrigatória e gratuita para reduzir mortes evitáveis, em um cenário de diagnóstico tardio e acesso limitado a tratamentos.
À medida que Uganda implementa neste mês a triagem obrigatória, em todo o país, de recém-nascidos para doença falciforme, uma terapia gênica celebrada nos Estados Unidos e na Europa permanece financeiramente fora do alcance da maioria dos pacientes na África. Segundo a World Health Organization, cerca de 515.000 bebês nascem a cada ano com doença falciforme, um distúrbio do sangue hereditário e vitalício. Aproximadamente 80% dos casos ocorrem na África Subsaariana, onde a condição é uma das principais causas de morte entre crianças pequenas.
Em Uganda, o Ministério da Saúde lançou neste mês (9 de fevereiro) uma política que exige que todos os bebês nascidos em unidades de saúde sejam triados para a doença ao nascer, gratuitamente, em um esforço para reduzir mortes evitáveis. Dados oficiais mostram que cerca de 20.000 crianças ugandesas nascem com a condição todos os anos, com até 80% morrendo antes dos cinco anos de idade, em grande parte devido ao diagnóstico tardio e a complicações evitáveis.
Enquanto governos africanos ampliam a detecção precoce e o tratamento básico, países de alta renda vêm adotando a primeira terapia de edição genética aprovada, projetada para curar a doença falciforme. A United States Food and Drug Administration aprovou Casgevy (exagamglogene autotemcel) para pacientes com 12 anos ou mais em dezembro de 2023, classificando-a como um tratamento "marco". A UK Medicines and Healthcare products Regulatory Agency aprovou a terapia algumas semanas antes, e ela foi autorizada para uso no National Health Service na Inglaterra em janeiro deste ano.
A FDA também aprovou Lyfgenia, uma terapia gênica baseada em células fabricada pela Bluebird Bio, embora ela traga um alerta sobre possíveis riscos de câncer.
A doença falciforme é causada por uma mutação no gene que produz a hemoglobina, a proteína que transporta oxigênio nos glóbulos vermelhos. O defeito faz com que as células se tornem rígidas e com formato de "foice", levando a dor intensa, danos a órgãos e redução da expectativa de vida.
Casgevy funciona coletando as células-tronco sanguíneas do paciente, editando-as em laboratório com a CRISPR gene-editing technology (tecnologia de edição genética CRISPR) para reativar a produção de hemoglobina saudável e, em seguida, reinfundindo-as no organismo após quimioterapia. Se for bem-sucedido, o paciente passa a produzir glóbulos vermelhos funcionais. Ensaios clínicos mostraram que a terapia reduziu dramaticamente episódios de dor intensa na maioria dos pacientes tratados.
No entanto, o avanço vem acompanhado de um custo impressionante, com Casgevy custando cerca de US$2,2 milhões nos Estados Unidos. A fabricante, Vertex, não respondeu a perguntas sobre preços para países de baixa e média renda. A Bluebird Bio também não forneceu resposta antes da publicação.
O preço da terapia gênica faz com que ela seja, em grande parte, simbólica na Nigéria, um país onde muitas famílias não conseguem pagar nem por medicamentos básicos. A Nigéria tem a maior carga mundial de doença falciforme, com estimativa de 150.000 bebês nascidos com a condição todos os anos. Milhões de outras pessoas vivem com o distúrbio, e muitas não têm acesso a tratamento contínuo.
Por décadas, o tratamento na África tem se concentrado no manejo de sintomas por meio de alívio da dor, prevenção de infecções, transfusões de sangue e, em casos limitados, transplantes de medula óssea — anteriormente a única cura estabelecida. A Nigéria estabeleceu três centros de transplante de medula óssea que oferecem esse tratamento. No entanto, os custos variam de US$50.000 a mais de US$200.000, o que também torna o procedimento inacessível para a maioria das famílias.
A confiança é outra barreira. Mesmo quando os procedimentos estão disponíveis no país, muitos preferem buscar tratamento no exterior, se puderem pagar.
A vantagem da terapia gênica em relação ao transplante de medula óssea é que ela não exige um doador — uma consideração importante para pacientes africanos, que enfrentam taxas menores de compatibilidade de doadores no mundo.
Os preços da terapia gênica refletem tanto a complexidade da ciência quanto a infraestrutura necessária para administrá-la. A maior parte da terapia gênica hoje depende de vetores virais e requer instalações altamente especializadas de boas práticas de fabricação, que custam milhões de dólares para serem construídas; assim, as empresas vendem essas terapias a um preço extremamente alto para recuperar os custos incorridos.
Nos Estados Unidos, a DF (doença falciforme) afeta aproximadamente 100.000 pessoas em 2024; ainda assim, mais de 90% dos pacientes são pessoas negras não hispânicas ou afro-americanas. Pacientes com DF frequentemente vivenciam episódios vaso-oclusivos (VOEs), anemia hemolítica, dano a órgãos e falência orgânica, reduzindo sua expectativa de vida em 20 anos quando comparada à média nacional.
Outras terapias aprovadas pela FDA para DF incluem L-glutamine (Endari; Emmaus Medical, Inc), voxelotor (Oxbryta; Global Blood Therapeutics) e crizanlizumab (Adakveo; Novartis), que aliviam VOEs. Uma terapia mais recente para tratar DF, isoquercetin, mostra-se promissora ao direcionar a tromboinflamação em adultos com DF.