Violações do cessar-fogo em Gaza continuam enquanto negociações da Fase II emperram

Quatro meses após a declaração de cessar-fogo em Gaza, mais de 570 palestinos foram mortos e 1.500 ficaram feridos, segundo a ONU, em meio a violações quase diárias. As negociações da Fase II seguem sem avanços e devem permanecer travadas pelo menos até o fim de fevereiro, com impasses sobre governança, segurança e reconstrução.

Quatro meses após a declaração de um cessar-fogo em Gaza, em outubro, mais de 570 palestinos foram mortos e 1.500 ficaram feridos, segundo estimativas da ONU. Pelo menos 108 dos mortos eram crianças e pelo menos 67 eram mulheres.

Há sinais crescentes, tanto de autoridades israelenses quanto estrangeiras, de que não haverá progresso significativo rumo à Fase II do cessar-fogo antes do fim de fevereiro, no mínimo. Fontes de alto escalão das IDF previram que levaria meses, mesmo no melhor cenário, até que o comitê tecnocrático palestino anunciado pela administração Trump como parte central da Fase II, em janeiro, começasse de fato a ter um impacto concreto na vida dos habitantes de Gaza.

O líder do Comitê Executivo do Board of Peace, Nickolay Mladenov, disse em Munique que não havia base para que seu comitê de supervisão ou o comitê tecnocrático palestino tomassem quaisquer medidas em Gaza até que cessassem as interrupções quase diárias do cessar-fogo entre Israel e Hamas. Mladenov acrescentou que, se tentassem começar a melhorar a situação em Gaza enquanto os combates ainda estivessem ocorrendo, isso apenas os constrangeria e tornaria seus esforços ineficazes.

Parte das mortes ocorreu nas imediações da “linha amarela”, a demarcação até onde Israel concordou em retirar as tropas, nos termos iniciais do cessar-fogo. Outras aconteceram muito mais ao interior do enclave. O Office for the Coordination of Humanitarian Affairs recebeu relatos de ataques aéreos, bombardeios, disparos de artilharia, fogo naval e tiroteios, incluindo ataques em áreas residenciais.

Na terça-feira, dois palestinos em bicicletas foram mortos em um ataque de drone israelense. Além de novos ataques, algumas das mortes e ferimentos foram atribuídos a bombas lançadas anteriormente sobre Gaza durante o bombardeio de dois anos. Segundo a ONU, desde que o cessar-fogo entrou em vigor, foram relatados cerca de 33 incidentes com artefatos explosivos, resultando em nove mortes e 65 feridos.

Em nota, as Israeli Defence Forces afirmaram que os ataques realizados desde o cessar-fogo foram “apenas contra alvos terroristas” e que as IDF empregaram “todas as medidas operacionais possíveis para mitigar danos a civis”. Citando ataques israelenses, o Hamas chamou o cessar-fogo de “sem sentido”.

A ONU também registrou pelo menos 80 mortes relatadas de palestinos atribuídas ao Hamas desde a declaração do cessar-fogo, em sua maioria em confrontos com famílias rivais e em execuções sumárias.

Desde janeiro, não houve anúncios ou relatos de que os comitês tenham assumido sequer alguma função civil em Gaza, algo que o Hamas, ao menos às vezes, disse publicamente estar disposto a lhes transferir. As únicas informações foram sobre disputas entre o comitê e o Hamas a respeito de quem administrará os esforços de reconstrução em Gaza em nome do comitê, com o Hamas insistindo que seus associados detenham esse poder, mesmo que o alto comando do Hamas passe a ficar em segundo plano em questões políticas.

Mladenov disse que os diversos comitês civis precisam que a International Stabilization Force (ISF) e uma nova força policial palestina — não associada ao Hamas — estejam instaladas. A previsão mais cedo para a chegada do primeiro contingente da ISF, cerca de 5.000 mantenedores da paz indonésios, ainda é de algumas semanas. Além de Mladenov, nenhuma autoridade israelense ou americana vem sequer discutindo ativamente a força policial palestina, de modo que permanece muito incerto quando e se ela será enviada.

Mladenov também disse que é necessário disponibilizar muito mais financiamento para a reconstrução de Gaza, algo que, ao que parece, só deve começar a partir de uma reunião nos EUA na quinta-feira.

Até o momento, o único progresso concreto no terreno da Fase II foi a abertura da passagem de Rafah. No entanto, mesmo essa abertura foi muito mais limitada do que o esperado em termos de quantos palestinos podem entrar e sair de Gaza, e nenhum veículo foi autorizado a atravessar a passagem até agora.

A Fase 1 do acordo também previa um aumento do fluxo de ajuda humanitária ao enclave. Mas agências da ONU descreveram a situação humanitária dos civis como “por um fio”, com alimentos, água e medicamentos insuficientes chegando a quem precisa, à medida que o inverno piorava as condições.

A Fase 2 do plano de paz mediado pelos EUA está oficialmente em andamento. Essa fase estipulou o desarmamento do Hamas, o envio de uma força internacional de estabilização e a reconstrução de Gaza. Até agora, o Hamas se recusou a se desarmar e continua a realizar ataques contra militantes rivais. Grande parte de Gaza foi reduzida a escombros nos últimos dois anos, com estimativa de 80% dos edifícios destruídos.

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References

  1. Pezeshkian Seeks Russian Support amid US-Israeli Attacks, Putin Urges Diplomacy · palestinechronicle.com
  2. No Gaza Phase II progress expected until late February | The Jerusalem Post · jpost.com
  3. Four months on from ceasefire, Gazans still being killed - RTE · rte.ie