Teste genético pode permitir o uso seguro do antiepiléptico valproic acid durante a gravidez
Pesquisadores da Monash University identificaram variações na sequência de DNA materno que podem modificar o risco de malformações congênitas associadas ao uso de valproic acid durante a gravidez. A descoberta abre caminho para um teste genético capaz de indicar quem pode usar o medicamento com segurança durante a gestação.
Cientistas deram um passo decisivo rumo a um teste genético que poderia ajudar milhares de mães com epilepsia a tomar um medicamento que salva vidas com segurança, sem o receio de causar malformações congênitas em seus filhos. A pesquisa, liderada pela Monash University em parceria com pesquisadores australianos e internacionais e com o Raoul Wallenberg Australian Pregnancy Register, foi publicada na revista acadêmica Neurology.
Valproic acid (VPA) é um medicamento anti-crises, e para muitas pessoas com epilepsia é o único ou o tratamento mais eficaz. No entanto, vários países vêm restringindo cada vez mais seu uso, porque cerca de 10 por cento dos bebês nascidos de mães que tomam VPA durante a gravidez apresentam uma malformação congênita estrutural, cuja gravidade pode variar de defeitos graves do tubo neural a alterações mais leves, como fenda palatina.
A pesquisa identificou um tipo de variação na sequência de DNA em mães que pode modificar o risco de o bebê ser prejudicado caso elas tomem VPA durante a gestação, e constatou que o VPA afeta a função de moléculas que se ligam ao DNA e regulam a atividade dos genes durante o desenvolvimento fetal. Variantes genéticas no DNA materno podem interferir nesse processo de ligação, explicando por que o medicamento só aumenta o risco de um efeito adverso em alguns fetos.
A equipe está trabalhando no desenvolvimento de um teste genético para identificar quem poderia tomar VPA com segurança, por não apresentar o risco genético de malformações congênitas durante a gravidez. “Este é um problema de importância crítica que precisamos resolver, porque os clínicos precisam ponderar os riscos para os bebês expostos no útero a medicamentos para epilepsia, como o valproate, em comparação com o risco de lesão ou até morte da mãe devido a crises não controladas caso ela não tome a medicação, ou use um fármaco menos eficaz”, afirmou um pesquisador. “Para algumas mulheres, o valproate é o único medicamento que controla as crises. O que queremos é garantir que aquelas pessoas que não têm risco genético de malformações congênitas associadas ao valproate possam continuar tomando a medicação.”
Um especialista em epilepsia da Monash School of Translational Medicine e do Alfred Health afirmou que o estudo destacou a importância dos registros como uma fonte crítica de dados para pesquisadores. “Esta colaboração utilizou dados de registros de gravidez na Austrália e ao redor do mundo, que nos oferecem insights sem precedentes sobre como gestantes com epilepsia e seus bebês evoluem com e sem medicação”, disse o pesquisador. “Essas informações são essenciais para nos aproximar do dia em que poderemos oferecer medicina de precisão para esse grupo, sendo capazes de prever respostas a medicamentos com base na composição genética específica do paciente, em vez de tentativa e erro.”
Um estudo separado, liderado pelo mesmo grupo de pesquisadores da Monash University, publicado na Neurology em novembro, utilizou modelos de deep learning para integrar e analisar dados genômicos e informações clínicas, a fim de prever a resposta aos tratamentos de primeira linha em pessoas com epilepsia recém-diagnosticada.
A próxima fase da pesquisa envolverá o uso das mais recentes ferramentas de deep learning para prever os efeitos de variantes genéticas na terapia medicamentosa e em eventos adversos, o que será viabilizado por uma tecnologia inédita na Austrália com a ativação, neste ano, do supercomputador MAVERIC da Universidade.