Doping Genético: Atletas Olímpicos Enfrentam Novos Desafios Antidoping
O doping genético deixou de ser apenas teórico; 92% dos atletas que se preparavam para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2026 passaram por testes antidoping. Especialistas propõem passaportes genômicos, destacando que não há casos confirmados, mas que o mercado negro oferece genes de EPO baseados em plasmídeos.
O doping genético não é mais apenas uma possibilidade teórica, e especialistas estudam maneiras de lidar com as consequências desses avanços. Nos seis meses anteriores ao início dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, em Milão-Cortina, na Itália, pelo menos 92% dos atletas que se preparavam para competir passaram por testes antidoping. Mais de 7.100 testes foram realizados em 2.900 participantes.
Os números foram divulgados pela Agência Internacional de Testagem (ITA), organização independente responsável por coordenar os controles antidoping em conformidade com o Código Mundial Antidoping da Agência Mundial Antidoping (WADA). Entre as atividades coordenadas pela ITA está a coleta e o armazenamento de amostras de sangue para implementar o passaporte biológico do atleta — um sistema que monitora parâmetros fisiológicos específicos ao longo do tempo para detectar alterações anormais que possam sugerir doping.
Um professor associado de genética da Universidade de Modena e Reggio Emilia, na Itália, propôs adicionar um componente genômico ao monitoramento antidoping — algo semelhante ao passaporte biológico do atleta. A ideia seria sequenciar o DNA de múltiplos tipos celulares em atletas de elite, armazenar essas sequências com segurança e repetir os testes ao longo do tempo para sinalizar alterações genéticas suspeitas que possam sugerir doping genético.
"Até hoje, nenhum caso confirmado de doping genético foi identificado", disse o professor. "No entanto, desde 2004, a lista de substâncias e métodos proibidos da Agência Mundial Antidoping inclui intervenções desse tipo, após os primeiros resultados clínicos sólidos que demonstraram a eficácia e a segurança da terapia gênica."
O professor descreveu um "rico arsenal de técnicas" capaz de induzir células humanas a produzir proteínas específicas, de forma temporária ou permanente. "É possível introduzir um gene no núcleo celular usando um vetor viral; modificar o genoma usando tesouras moleculares como o CRISPR-Cas9 — ambas soluções permanentes — ou usar um plasmídeo, uma pequena molécula circular de DNA capaz de transferir um gene para uma célula com efeitos transitórios. Alternativamente, uma vacina de mRNA pode ser usada para induzir a produção temporária de proteínas sem alterar o DNA da célula."
Em 2023, um grupo de pesquisa da Universidade de Colônia, na Alemanha, comprou frascos no mercado negro contendo uma preparação injetável que, segundo os vendedores, incluía plasmídeos carregando o gene da eritropoetina. Os pesquisadores analisaram os frascos usando um teste capaz de detectar DNA de plasmídeo e identificaram o gene em questão, embora em concentrações baixas demais para produzir um efeito relevante. O professor observou que isso demonstrou que a tecnologia está disponível comercialmente e que há interesse no mercado clandestino por esse tipo de produto.
O doping genético ainda enfrenta limitações significativas. "A predisposição para um esporte específico é uma característica poligênica — depende de um grande número de genes", disse o professor. "Não é possível pegar uma pessoa com desempenho mediano e transformá-la em um atleta de elite. No entanto, identificamos de 20 a 30 genes que regulam mecanismos específicos capazes de proporcionar vantagens significativas em competições de alto nível. Quando os atletas já são geneticamente predispostos e altamente treinados, até mesmo uma pequena diferença genética pode determinar a vitória."
Além do gene da eritropoetina, o professor citou o gene que codifica a miostatina, que limita o desenvolvimento muscular. Reduzir sua atividade pode aumentar a massa muscular sem alterar o volume de treinamento. Outros alvos potenciais incluem genes que regulam fatores de crescimento como o IGF-1, genes envolvidos no metabolismo da glicose e aqueles que controlam processos inflamatórios.
Tais intervenções acarretariam riscos não negligenciáveis, principalmente mutações fora do alvo — alterações acidentais de genes diferentes do alvo pretendido — que poderiam causar efeitos imprevisíveis. Forçar o corpo além de seus limites fisiológicos poderia, com o tempo, resultar em danos cardiovasculares, hepáticos ou renais.
Nos últimos anos, especialistas têm buscado métodos cada vez mais sofisticados para detectar os efeitos do doping genético. O fato de nenhum caso confirmado ter sido identificado até agora não significa que ninguém tentou, como ilustra o episódio dos frascos de mercado negro em 2023. O professor também observou que proteínas produzidas por genes introduzidos artificialmente são idênticas às produzidas naturalmente pelo corpo humano.